Thursday, February 24, 2005

Fenómeno Português

Felizmente já visitei vários países (o que me torna minimamente conhecedor da cultura de cada um) e sempre constatei que o acto de despedida é muito breve. Ou seja, uma pessoa visita outra, despede-se e vai-se embora. E tal faz todo o sentido porque se a pessoa se despediu é porque pretende ir-se embora, pois já não existe mais nada para dizer ou discutir. Mas porque é que isto não acontece em Portugal?

De facto, os portugueses sempre me fascinaram quando vão visitar amigos ou familiares. Quando se despedem, ainda conseguem demorar uma eternidade de tempo antes de se irem realmente embora. Uma pessoa despede-se mas depois começa a falar de outra coisa, volta a despedir-se, mas entretanto chega alguém ou lembram-se de um novo tema para discutirem e fica-se mais um pouco.

Exemplos? Ontem fui a casa de um amigo meu (chamemos-lhe Jorge) e entretanto chegou um outro amigo nosso (o António). Começámos os três a falar e cerca de uma hora depois o António disse: "Pá, tenho de me ir embora porque tenho que acordar cedo. Vou jogar à bola com uns bacanos lá do emprego." Foi aqui que tudo começou a correr mal. O António nunca devia ter dito porque se ia levantar cedo. E porquê? Porque o Jorge aproveitou logo! "Vais jogar à bola? Vê lá se marcas um auto-golo como o que o Barcelona marcou hoje." Acontece que o António não tinha visto esse jogo e quis saber como tudo aconteceu. E foi mais meia-hora nisto. "Bem, agora é que vou mesmo. Já é tarde." Nisto chega o Paulo. "Onde é que pensas que vais? Cheguei agora do cinema. Tens que ouvir a história deste filme. Brutal!" Conclusão? Ficámos nisto mais duas horas e quando o António finalmente saiu (às três da matina), só dizia: "Amanhã já não há jogo para ninguém!"

E isto também é válido para conversas ao telefone. A minha mãe é a recordista deste fenómeno. Apresenta uma incrível média de quatro despedidas por telefonema. Ontem consegui ouvi-la dizer "Adeus" seis (!!!) vezes no mesmo telefonema. Podemos então concluir que o período que vai desde a pessoa despedir-se até se ir realmente embora (ou até desligar o telefone) é enorme. Alguém me consegue explicar este fenómeno?

2 comments:

bone daddy said...

Incrível!!!
A minha mãe é exactamente igual!

Alcandura said...

Sugestão:

Não digam frases; utilizem só uma palavra, tipo "sim" ou, se cairem na tentação de fazerem frases e motivarem a conversação, utilizem só uma frase, tipo "estou com pressa". A combinação das duas é fatal, tipo "sim"...pausa longa..."sim"...pausa longa..."estou com pressa". RESULTA SEMPRE! Falo por experiência própria!